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Como começar a empreender (e não virar estatística)

Como começar a empreender (e não virar estatística)
Vinícius Terçariol
Vinícius Terçariol 14 min de leitura
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Você quer saber como começar a empreender. Pode ser por insatisfação com o CLT, por uma oportunidade que identificou no mercado ou por necessidade de renda. O motivo importa, mas o próximo passo importa mais: 47 milhões de brasileiros já estão tocando algum tipo de negócio, e em 2024 foram abertos mais de 4 milhões de CNPJs novos. (See also: quero empreender mas não tenho ideias.)

Ao mesmo tempo, cerca de 48% das empresas fecham em até 3 anos. A barreira de entrada nunca foi tão baixa. O risco de fracasso continua alto. A diferença entre quem sobrevive e quem vira número não é talento, sorte ou “ter nascido pra isso”. É método.

Este guia cobre o caminho concreto: da validação da ideia ao primeiro cliente, passando por formalização, finanças e aquisição de clientes, com os dados mais recentes do mercado brasileiro.

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O cenário de quem empreende no Brasil em 2025

Antes de planejar qualquer coisa, vale entender o campo onde você está entrando.

Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024, a taxa de empreendedorismo no Brasil atingiu 33,4%, o maior patamar dos últimos quatro anos. Um em cada três adultos está envolvido com algum negócio. De janeiro a setembro de 2025, foram abertos 3,87 milhões de novos pequenos negócios, crescimento de 18,7% sobre o mesmo período do ano anterior.

Tem mais: os MEIs já representam 53% dos negócios ativos no país, e 78% dos novos CNPJs em 2025 são dessa categoria. O Brasil é, literalmente, um país de microempreendedores.

O outro lado da moeda: quase metade desses negócios não vai completar três anos. As causas se repetem em todo estudo sobre mortalidade empresarial: má gestão financeira, falta de diferenciação e ausência de planejamento. E aqui entra um dado que muda a conversa: empresas cujos sócios fizeram cursos de gestão têm taxa de sobrevivência de 51%, contra 34% daquelas sem capacitação. São 17 pontos percentuais de diferença. Capacitação não é perfumaria. É vantagem mensurável.

Saber o tamanho do campo é o primeiro passo. O segundo é descobrir se sua ideia tem pé no chão antes de investir qualquer coisa nela.

Close das mãos de uma pessoa escrevendo em um caderno sobre como começar a empreender com planejamento detalhado.

Valide a ideia antes de gastar um centavo

O erro mais comum de quem está começando não é escolher o nicho errado. É correr pra abrir CNPJ, montar logo, criar Instagram e imprimir cartão de visita sem testar se alguém quer comprar o que você pretende vender.

O GEM 2024 diferencia dois tipos de empreendedorismo: por oportunidade (você identificou uma lacuna real no mercado) e por necessidade (você precisa de renda). Negócios nascidos de oportunidade duram mais porque partem de uma demanda comprovada, não de uma suposição.

Validar não exige dinheiro. Exige conversa e honestidade. Um roteiro simples:

  1. Converse com pelo menos 20 potenciais clientes. Não amigos, não família. Pessoas que teriam o problema que você quer resolver.
  2. Pergunte como elas resolvem esse problema hoje. Se não resolvem, pergunte por quê. Se resolvem com outra solução, entenda o que falta nela.
  3. Ofereça seu produto ou serviço manualmente, mesmo que rudimentar. Alguém paga? Alguém demonstra interesse real (não só “legal, quando lançar me avisa”)?
  4. Pesquise o volume de busca no Google Trends. Se ninguém pesquisa algo próximo do que você oferece, o mercado pode ser pequeno demais, ou o problema pode não ser urgente o suficiente.

A meta não é montar um plano de negócios de 40 páginas. É responder com evidência a uma pergunta: “Alguém pagaria por isso?” Se a resposta for sim, aí sim você formaliza.

Formato jurídico: escolha o certo pro seu momento

Formalização não precisa ser um bicho. No Brasil de 2025, abrir um MEI leva minutos. Mas escolher o formato errado pode custar caro lá na frente, seja por limite de faturamento estourado, seja por carga tributária desnecessária.

Aqui está o mapa resumido:

Formato Faturamento anual Sócios Custo mensal Melhor pra quem
MEI Até R$ 251,6 mil Nenhum A partir de ~R$ 70 Quem está começando solo, com faturamento baixo
ME Até R$ 360 mil 1 ou mais Variável (contador obrigatório) Quem precisa de sócios ou já ultrapassou o MEI
EPP R$ 360 mil a R$ 4,8 mi 1 ou mais Variável Negócios em expansão
LTDA Sem limite 2 ou mais Mais alto Operações maiores, com investidores

O MEI foi criado pela Lei Complementar 128/2008 e desde 2010 pode ser aberto online pelo Portal do Empreendedor. É a porta de entrada mais usada no país por um motivo: custo fixo baixo, burocracia mínima e acesso a benefícios como INSS e emissão de nota fiscal.

Segundo a Contabilizei, a formalização de qualquer porte segue seis passos principais:

  1. Definir o plano de negócio (mesmo que básico)
  2. Escolher a natureza jurídica (MEI, ME, LTDA)
  3. Selecionar o CNAE (a classificação que define o que sua empresa pode fazer legalmente)
  4. Definir o regime tributário (Simples Nacional, Lucro Presumido ou Real)
  5. Registrar na Junta Comercial e obter o CNPJ
  6. Conseguir alvará municipal e inscrições estaduais necessárias

Um alerta que muita gente ignora: não fique como MEI além do limite de faturamento só pra evitar custos. As multas e o desenquadramento retroativo são problemas piores do que o custo de um contador.

Com o CNPJ em mãos, a tentação é investir em tudo ao mesmo tempo. Resista. A próxima etapa é montar uma operação enxuta que funcione com o mínimo necessário.

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Operação enxuta: comece com o mínimo que funciona

Existe uma armadilha que engole empreendedores iniciantes: o planejamento perpétuo. Meses escolhendo logo, comprando equipamentos, montando site “profissional”, pesquisando o software perfeito. Enquanto isso, zero clientes, zero receita, zero aprendizado real.

A operação do dia 1 precisa ter só o que é necessário pra vender e entregar. O resto vem depois, calibrado pelo feedback de quem compra.

Algumas ferramentas que reduzem custo e complexidade pra quem está começando:

  • Gestão financeira e ERP: Omie e ContaAzul são ERPs na nuvem pensados pra micro e pequenas empresas.
  • E-commerce: Nuvemshop tem o melhor custo-benefício pra quem vende no mercado brasileiro. Shopify é opção pra quem mira público internacional.
  • Pagamentos e cobrança: Asaas automatiza boletos, Pix e cartão sem exigir estrutura complexa.
  • Conta PJ: Nubank e Inter oferecem contas sem tarifa, o que importa quando cada real conta.

Se seu negócio é físico (restaurante, salão, academia, clínica), a operação enxuta inclui um ponto que quase ninguém trata como prioridade: a infraestrutura digital do espaço. A rede Wi-Fi, o sistema de agendamento, a comunicação com o cliente depois da visita. Esses detalhes operacionais não aparecem em nenhuma lista de “passos pra empreender”, mas definem a experiência do cliente e, consequentemente, se ele volta. No caso de restaurantes especificamente, existem técnicas específicas de conversão e retenção que se aplicam desde o primeiro dia de operação.

Operação rodando? Ótimo. Agora, nada disso importa se o dinheiro não estiver sob controle desde o primeiro dia.

Controle financeiro desde o real zero

Pergunte pra qualquer empreendedor que fechou as portas. A maioria vai citar dinheiro. Não necessariamente “falta de dinheiro”, mas a incapacidade de saber pra onde o dinheiro ia, quando voltava e se a operação se pagava.

Três regras que, sozinhas, eliminam boa parte dos problemas financeiros de negócios novos:

Separe as contas, sem exceção. Mesmo como MEI, tenha uma conta exclusiva pro negócio. Misturar pessoal com empresarial é o caminho mais rápido pra perder controle total do fluxo de caixa. Parece básico. 48% das empresas fecham por fatores que incluem isso.

Projete o fluxo de caixa semanalmente. Não vale fazer uma planilha bonita no mês 1 e nunca mais abrir. O fluxo de caixa é o painel de controle do negócio. Entradas previstas, saídas fixas, saídas variáveis. Se a projeção de três semanas mostra que o caixa fica negativo, você tem tempo pra agir. Se descobre isso no dia que a conta não fecha, acabou.

Conheça seu ponto de equilíbrio antes de tomar crédito. Ponto de equilíbrio é a receita mínima pra cobrir todos os custos. Se você não sabe esse número, qualquer empréstimo é aposta cega. Se sabe, consegue calcular em quanto tempo o investimento se paga e se o risco vale.

O Brasil registrou 2.273 pedidos de recuperação judicial em 2024, recorde da série histórica. Não foram só empresas pequenas. Americanas (R$ 51 bilhões em dívidas), Gol (R$ 20 bilhões), Dia (R$ 1 bilhão): todas quebraram por problemas de governança e controle financeiro, não por falta de clientes. Escala sem disciplina financeira é acelerador de falência.

Finanças sob controle. Agora vem a parte que define se o negócio cresce ou estagna: encontrar quem paga.

Conquiste os primeiros clientes sem queimar orçamento

O reflexo natural de quem abre uma empresa é pensar em marketing como sinônimo de anúncio pago. Separar R$ 500 por mês pra Instagram Ads, impulsionar posts, torcer pra aparecer alguém interessado.

Pra quem está começando, essa é uma das piores estratégias possíveis. Sem dados sobre quem é seu cliente, sem histórico de conversão, sem margem pra errar, anúncio pago queima dinheiro rápido e ensina pouco.

Antes de pagar por alcance, use o que já está ao seu redor:

Sua rede de contatos é o primeiro canal de aquisição. Não pra vender diretamente (ninguém gosta do amigo que vira vendedor), mas pra pedir indicações. “Conheço alguém que precisa de X?” funciona melhor do que qualquer copy de Instagram quando você está no zero.

Conteúdo que demonstra competência vende sem pedir. Um vídeo de 60 segundos mostrando como você resolve o problema do cliente tem mais poder de conversão do que um carrossel genérico com “5 motivos pra contratar nosso serviço”. Mostre o trabalho. O cliente tira a conclusão sozinho.

Se você tem ponto físico, o Wi-Fi é um canal de captura que quase todo mundo ignora. Pense: toda pessoa que entra no seu restaurante, academia, salão, clínica ou loja e se conecta ao Wi-Fi está ali, presente, já interessada no que você oferece. Com um captive portal (a tela de login do hotspot), o cliente digita celular ou e-mail pra acessar a internet. Pronto: você tem o contato dele sem constrangimento, sem formulário chato, sem pedir nada no balcão.

A partir desse contato, o ciclo pode ser automático. Uma mensagem de WhatsApp agradecendo a visita. Um cupom de retorno no dia seguinte. Um lembrete de agendamento na semana depois. Isso é aquisição e retenção de cliente rodando com estrutura, não com esforço manual repetitivo.

Esse conceito (usar o Wi-Fi como canal de captura e o WhatsApp como canal de conversão) é o que chamamos de Wi-Fi marketing. Se você opera um ponto de venda físico, vale entender como isso funciona na prática. A mesma estrutura pode ser aplicada em estratégias de lançamento de produtos, criando buzz e captando leads qualificados desde o primeiro contato.

O princípio por trás é simples: todo ponto de contato com o cliente é uma oportunidade de coleta de dados e início de relacionamento. Quem entende isso no mês 1 constrói base de clientes. Quem entende no mês 18 já perdeu centenas de contatos que passaram pelo negócio e sumiram.

Clientes aparecendo é ótimo. Mas a maioria das empresas que fecha não fecha por falta de clientes. Fecha pelo que acontece depois.

O que derruba empresas novas (e o que as sustenta)

As causas de mortalidade empresarial são estudadas há décadas e continuam as mesmas. Má gestão financeira. Falta de diferenciação. Ausência de planejamento estratégico. No mundo das startups, apenas 50% sobrevivem quatro anos. No universo geral de empresas brasileiras, 48% somem em três.

Alguns casos recentes ilustram o que dá errado, mesmo em operações grandes:

A Cabify entrou no Brasil pra competir com Uber e 99, oferecendo basicamente o mesmo serviço pro mesmo público. Sem diferenciação real, queimou capital por cinco anos e saiu do mercado em 2021. A lição: entrar num mercado saturado com proposta idêntica não funciona, independente do tamanho do caixa.

A Casa do Pão de Queijo dependia de um único canal de receita: tráfego de aeroportos. Quando a pandemia zerou esse fluxo, a receita caiu 50% e a empresa pediu recuperação judicial com R$ 57,5 milhões em dívida. A lição: diversifique fontes de receita. Um negócio que depende de uma única variável está a um evento externo de quebrar.

Na direção oposta, o Magazine Luiza sobreviveu à pandemia transformando vendedores de loja física em vendedores digitais. Não abandonou o modelo antigo. Adaptou. A Cacau Show começou com um empreendedor vendendo chocolate de porta em porta e hoje é a maior rede de chocolates finos do mundo em número de lojas. Execução disciplinada, foco no cliente de massa, iteração contínua.

O fator que mais move a agulha da sobrevivência continua sendo capacitação. A diferença de 17 pontos percentuais entre empresas com e sem gestores capacitados não é coincidência: quem entende de gestão toma decisões melhores com a mesma quantidade de informação.

Se você chegou até aqui, já tem mais clareza do que 90% das pessoas que pesquisam “como começar a empreender”. O próximo passo é sair da pesquisa e agir. Comece pela validação. Formalize quando tiver evidência. Monte enxuto. Controle o caixa. Capture cada contato. Ajuste toda semana.

E se o seu negócio tem (ou vai ter) ponto físico, considere que o Wi-Fi e o WhatsApp podem ser os canais de captura e fechamento mais baratos da sua operação. Fale com nosso time se quiser entender como isso funciona no seu setor.

Ambiente de coworking moderno e amplo com pessoas trabalhando para mostrar como começar a empreender com foco.

Perguntas frequentes

Preciso de dinheiro pra começar a empreender?

Depende do modelo. Serviços e negócios digitais podem começar com investimento próximo de zero. Negócios físicos exigem capital pra estoque, ponto comercial e equipamentos. Em qualquer caso, valide a ideia antes de investir e conheça seu ponto de equilíbrio. Começar como MEI reduz custos fixos ao mínimo (cerca de R$ 70 mensais).

Posso empreender sem largar o emprego CLT?

Sim. Não existe impedimento legal pra ser CLT e MEI simultaneamente (desde que seu contrato de trabalho não tenha cláusula de exclusividade). Muitos empreendedores começam na jornada dupla, validando o negócio com segurança financeira do salário. A transição pra dedicação exclusiva vem quando a receita do negócio sustenta a saída.

MEI ou ME: qual escolher no início?

Se seu faturamento previsto é inferior a R$ 251,6 mil por ano, você trabalha sozinho (ou com no máximo um funcionário) e sua atividade está na lista permitida, comece como MEI. É mais simples, mais barato e pode ser migrado pra ME quando o negócio crescer. Se já prevê faturamento maior ou precisa de sócios, vá direto pra ME com Simples Nacional.

Quanto tempo leva pra uma empresa dar lucro?

Varia enormemente por setor e modelo. Negócios de serviço podem lucrar no primeiro mês. Negócios com estoque físico costumam levar de 6 a 18 meses. O que faz diferença é ter clareza sobre custos fixos e projeção de receita. Se em 6 meses não há nenhum sinal de tração (clientes pagantes, receita crescente, demanda real), é hora de revisar o modelo.

Qual o principal erro de quem está começando?

Gastar antes de validar. Abrir CNPJ, montar loja, investir em estoque e marketing sem evidência de que existe demanda real pro produto ou serviço. O segundo erro mais comum é misturar finanças pessoais e empresariais, o que elimina qualquer visibilidade sobre a saúde do negócio.

Preciso de um plano de negócios formal?

Não no formato acadêmico de 40 páginas. Você precisa de respostas claras pra quatro perguntas: qual problema resolvo, pra quem, por quanto e com que custo. Se consegue responder com dados (não achismos), tem o suficiente pra agir. O plano formal faz sentido depois, quando buscar crédito, investidores ou parceiros que exigem documentação.


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